O múltiplo, amável, afável. generoso e bem educado paulistano Francisco Antonio Paulo Matarazzo Sobrinho, Ciccillo Matarazzo, não veio ao mundo para uma vida ordinária.
Apaixonado pela Itália, Brasil e São Paulo, cosmopolita, visionário, cabeça de grande empreendedor industrial e cultural, plantador de chaminés, cultura e civilização, coração de poeta, bolso de maior e principal mecenas de verdade do Brasil. Pensava grande, enxergava longe. Gostava de criar, inovar e concretizar projetos e sonhos. E de viver e conviverintensamente, inclusive no mundo das artes. Brincava: “Depois de lidar com artistas, o resto é sopa!” Homem de ideias e de ação, contribuiu decisivamente para modernizar e elevar o padrão cultural de São Paulo e do Brasil, antes caracterizadopela prevalência da apropriação privada, provincianismo e isolamento internacional. Queria democratização e compartilhamento da arte, proximidade entre o povo e a cultura.
Nascido no Centro, rua Major Quedinho, em 20 de fevereiro de 1898, é o segundo dos sete filhos dos imigrantes italianos Virginia Ceraldi e senador Andrea Matarazzo, abastado industrial, Cavaliere del Lavoro e senador do Reino da Itália, irmão, consogro e principal sócio e parceiro do também imigrante Francesco Matarazzo, o lendário conde Matarazzo, empreendedor genial que, a partir de quase nada, em 1881, criou no Brasil o melhor, maior e mais diversificado conglomerado empresarial privado da América Latina, as Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo-IRFM. Chegou a ser o italiano mais rico do planeta nos anos 1920.
O berço de ouro de 24 quilates não conduziu Ciccillo à vida ociosa e/ou ao hedonismo. Aos 10 anos, foi viver na Europa. Completou o ensino médio em Nápoles, Itália, e curso de engenharia em Liège, Bélgica. Voltou ao Brasil, trabalhou nas IRFM. A partir de 1935, assumiu o controle e a direção daMetalúrgica Matarazzo, a Metalma, que transformou em poderoso complexo industrial, maior fabricante de latas do país. Moderna, competitiva, rica e rentável, a empresa foi a principal fonte de recursos de seu longo, abençoado, caríssimo einigualável mecenato.
Ele sempre gostou de arte. Jovem, tinha preferência peloestilo acadêmico. A empolgação pelo modernismo brotou forte no princípio dos anos 1940. Surgiu da interação com o escritor, poeta, pintor e crítico Sérgio Milliet, o engenheiro-arquiteto Eduardo Kneese de Melo e outros intelectuais modernistas sobre a ideia de criar um museu. Um sonho importante, grande e caro. Entusiasmado, Ciccillo resolveu aprofundar a discussão dentro e fora do país.
Sua vasta rede de amizades incluía desde colaboradores humildes até o primo e cunhado, magnata e conde Chiquinho Matarazzo, artistas e intelectuais do mais alto nível, estrelas como o presidente Juscelino Kubitschek e o zilionário norte-americano Nelson Rockfeller, dono da Standard Oil Company. Na Europa, conviveu com vários expoentes da área, como o empresário de arte e museólogo alemão Karl Nierendorf, diretor do Museu Guggenheim. Queria afastar incertezas, convencer-se. Do assessor, confidente e anjo-da-guarda Manoel Esteves da Cunha Júnior, o pequenino e admirável Neco: “Seu Matarazzo consulta, consulta, consulta , mas acaba decidindo tudo da cabeça dele”. Verdade! Até sua inseparável bengala sabia disso. Foi assim que resolveu fazer o Museu de Arte Moderna.
Deu-se o mesmo com a criação da Bienal. Assuntou, pesquisou, ouviu muita gente e, de repente, decidiu. No livro autobiográfico Tudo em cor-de-rosa, a articuladora cultural e locomotiva das artes Yolanda Penteado, sua mulher e principal parceira, conta que a futura Bienal de São Paulo entrou em sua vida em 1948, durante a 24ª Bienal de Veneza. “Certo dia, em casa, Ciccillo dispara: ‘Você não quer experimentar fazer uma bienal?’ Fiquei muito espantada, porque nem sabia direito o que era uma bienal”.
Ciccillo, que viveu muitos amores, não teve filhos. Mas via a Bienal como filha: “Eu fui o pai da Bienal. No começo, eu era tudo e eu fazia tudo, desde dar dinheiro até quase pregar quadros nas paredes.” A primeira reuniu 21 países e 1.600 obras em 1951, superando as expectativas mais otimistas de público e de impacto cultural no país e no exterior. Sucesso retumbante, ela inseriu o Brasil no cenário mundial dos megaeventos de arte moderna e contemporânea.
Ciccillo é também o criador e/ou articulador e patrocinadorde outros notáveis instrumentos, obras e instituições culturais, como o Museu de Arte Contemporânea de São Paulo; a Companhia Cinematográfica Vera Cruz; o Teatro Brasileiro de Comédia, o Museu dos Presépios (acervo hoje integrado ao Museu de Arte Sacra de São Paulo), prêmios artísticos referenciais. Idealizou, equacionou e viabilizou a construção do magnífico conjunto arquitetônico do Parque do Ibirapuera, marco da cidade de São Paulo e da arquitetura moderna do Brasil. Ele acolheu e apoiou vários artistas em dificuldade e suas obras. Colaborou na formação do acervo do Museu de Arte de São Paulo-Masp, apesar de forte contencioso com seu fundador, o poderoso e temido jornalista e empresário Assis Chateaubriand.
“O Ciccillo achava que a forma de inserir São Paulo no mundo era por meio da cultura. Ele criou o Museu de Arte Moderna com o seu próprio acervo e fez o mesmo com o Museu de Arte Contemporânea, que conta com a maior e melhor coleção de arte moderna da América Latina e muito mais. Certa vez perguntei por que doava tanto à cultura: trabalheira sem fim, parte substancial da fortuna, a rica biblioteca com mais de 50 mil títulos, até mesmo toda a pinacoteca com centenas de quadros maravilhosos e muitíssimo mais. Anotei a resposta: “Preciso contribuirpara levar a arte ao povo. Um homem só marca sua presença na história quando suas obras têm um significado para a sociedade maior do que para ele próprio.”
Espaço para o olhar feminino, fragmentos de diálogo coma escritora e jornalista Claudia Matarazzo:
— O que mais te impressiona no tio e padrinho Ciccillo?
— Era um esteta obsessivo. Procurava belezas ocultas nas pessoas, nos lugares, nos objetos. Buscava a beleza em tudo, era um desafio. Isso me marcou muito. Tinha uma grande compreensão da alma humana. Não havia nada de pernóstico nele. Não tinha preconceitos, valia tudo. Apreciava um Van Gogh e também um quadrinho pintado pelo José Mauro de Vasconcelos, que pendurava na parede com o maior carinho.
— Mandava muito?
— Era um homem acostumado a mandar e ser obedecido, mas muito doce e brincalhão.
E agora trecho de diálogo com mestre Oscar Niemeyer, admirador de Ciccillo:
— Como era ele?
— Um sujeito inteligente, interessado pelos problemas das artes, da arquitetura. O Ibirapuera, o Museu de Arte Moderna de São Paulo, aquilo tudo foi ele quem fez. Coordenou a Comissão do Quarto Centenário de São Paulo. Era muito interessado em assuntos de cultura, em artes plásticas, museus. Era um sujeito assim muito bom de lidar, um sujeito inteligente. Era meu amigo, fui algumas vezes à casa dele. Uma figura boa, que eu prezava muito.
São Paulo, tarde de 16 de abril de 1977, Conjunto Nacional, avenida Paulista, 2073, Consolação, 22º andar, residência de Ciccillo. Aos 79 anos, gravemente enfermo, o único pulmão ativo debilitado, saturação de oxigênio no sangue inferior a 90%, ele parece adivinhar a chegada de sua hora e vez Quer despedir-se de São Paulo. “Tenho uma fé inabalável nesta cidade”, dizia sempre. Pede ao amigo e sobrinho GiannandreaMatarazzo para levá-lo até uma janela com vista para fora. Em silêncio, observa por alguns instantes as duas longas muralhas de arranha-céus e a vida pulsante da avenida Paulista. Fechaentão os olhos e parte para o infinito e a eternidade. ________
*Escritor, economista, homem público, doutor em história pela Sorbonne (Paris IV.).
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